domingo, 11 de outubro de 2026

Um Maldito Par de Chinelos

Eu sempre soube que a sua vida seguiu. A minha também seguiu. Por qual motivo a sua não seguiria?

Mas hoje, por causa de um comentário absolutamente idiota sobre um par de chinelos esquecido na praia, descobri que outras pessoas também frequentaram aquele apartamento.

Foi só isso.

E estou chorando de um jeito que não consigo explicar. Ou talvez consiga, mas tenha vergonha de admitir.

Porque eu achava que existiam lugares que ainda eram só nossos. Aquela praia, aquele apartamento, aquele quarto. Aquela parede da qual ainda me lembro tão bem.

Ingenuidade minha. Eu sei.

Você nunca me prometeu que aqueles lugares permaneceriam intocados. Aliás, não me prometeu quase nada.

Mas é estranho descobrir que aquilo que guardei durante tantos anos como algo tão particular talvez não tenha tido a mesma importância para você.

E, de repente, algumas coisas parecem fazer sentido.

Talvez seja por isso que você não atravessa. Talvez não exista, do seu lado, nada parecido com o que ainda existe do meu. Talvez eu tenha passado todos esses anos tentando reencontrar alguém num lugar de onde essa pessoa já saiu há muito tempo.

Ou talvez eu esteja procurando respostas onde elas não existem.

Porque nós nunca vamos conversar sobre sentimentos. Nunca vamos falar sobre o que fomos, sobre o que ficou ou sobre o que ainda significa alguma coisa.

E eu nunca vou saber.

O que sei é que estou aqui, depois de tantos anos, chorando por uma lembrança que ninguém me tirou. Mas que, de alguma maneira, hoje parece diferente.

Não tenho raiva de você. Nem sequer tenho o direito de estar decepcionada.

Só estou triste. Profundamente triste.

Porque eu sempre soube que não fazia mais parte da sua vida daquela maneira.

Só não tinha percebido que uma parte de mim nunca saiu daquele quarto.

E tudo isso por causa de um maldito par de chinelos que sua irmã tá usando. Um maldito par de chinelos. 

domingo, 5 de abril de 2026

We Gotta Get Away From Here

 Hoje eu passei na casa da sua irmã, já tinha combinado com ela. Dei parabéns para ela, sentei, conversei, conheci pessoalmente sua irmã mais nova — e fingi que tudo era muito simples.

E não era.

Tem alguma coisa desconfortável que acontece quando a gente divide um espaço pequeno depois de tudo (qual tudo?). As palavras ficam mais curtas, os sorrisos ficam mais rápidos, e o silêncio entre uma frase e outra pesa de um jeito que todo mundo sente mas ninguém nomeia. Até sua sobrinha percebeu. Ela lembra perfeitamente de como éramos amigas — e ainda assim notou que alguma coisa entre a gente não fecha direito.

Depois eu te dei carona. Você ficou no banco do passageiro como se fosse uma coisa normal. Como se eu fosse uma coisa normal. Mexeu na minha chave com chaveiro dos Cavaleiros do Zodíaco. Usou meu álcool em gel sem pedir. Reclamou de coisas aleatórias, desta vez da minha garrafa - porque outros bancários também tem essa garrafa e acham que é fácil levar essa garrafa no metrô e etc etc etc. Como se fosse um outro dia qualquer em nossas vidas, como se você conhecesse os acessórios do carro atual como conhecia do antigo. Não pedindo permissão para mexer em nada. Como se a gente não fosse uma ferida que nunca fechou porque nenhuma das duas teve coragem de nomear o que era.

Eu coloquei música. Sempre coloco. Talvez pra ter onde olhar além de você.

"Just stop your crying, it's a sign of the times."

Eu quase ri. Daquele jeito torto de quando a vida escolhe a trilha sonora por você e acerta demais.

A gente se perdeu. Irremediavelmente. Eu tenho culpa, você também tem. Mas o problema não é o fim — o fim eu já tinha ensaiado mil vezes. O problema é o que ficou antes. O que eu precisei inventar pra aguentar ficar perto de você sem dizer nada. Eu construí uma versão sua que cabia em mim, cheia de coisas que você nunca prometeu ser.

Você sempre foi exatamente quem era. Eu acreditei em promessas que só eu vi. É agora nem amizade parece ter sobrado.

É tão triste isso. Tão triste que eu nem consigo mais  chorar. Só consigo observar.

E agora fico aqui tentando desmontar cada coisa que guardei — cada silêncio que li como cuidado, cada vez que você sorriu pra mim e eu deixei esse sorriso fazer mais do que deveria. 

Cansa. 

Desconstruir uma ilusão cansa muito mais do que perder uma pessoa real.

Porque você continua existindo. Do outro lado da cidade, do outro lado do desconforto que agora mora entre a gente. 

Você continua existindo — e eu que virei fantasma. 

Fui embora sem desabar. Fiz tudo certo: sorri, conversei, não toquei em assuntos espinhosos, mal olhei pra você.

Mas agora tô aqui, a música ainda não parou - tá num looping maldito e eterno na minha cabeça e nos meus fones de ouvido - e eu tô pensando que a gente nunca teve começo oficial. Nunca teve nome. E agora tem um fim igualzinho — sem data, sem despedida, sem amizade, sem um resquício, sem nada que eu possa segurar.

A única certeza que tenho é de que amei sozinha.

E que isso nunca vai ter sido dito em voz alta.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Lembranças

Eu nem lembrava que tinha dado pra ela um Light Blue. Será que foi da viagem de 2014? Da de 2016?

Da mesma forma que ela não lembrou da Jules Destrooper que dividimos em Abu Dhabi. 

Da mesma forma que eu disse para ela no dia em que ela aceitou a carona que eu tinha uma camisa igual a que ela estava usando e ela disse que claro que eu tinha, porque tínhamos comprado juntas. Quando foi isso?

Ela também guardou coisas. Talvez não as mesmas coisas.

Eu fico pensando no que ela carrega que eu esqueci. O que ainda vai aparecer numa conversa.

E aquela foto específica dela no alto da montanha em Campos, com a lua atrás? Será que ela lembrou? Será que ela viu? Será que ela lembra das coisas como uma foto que não sabia que existia?

Eu fiquei magoada infinitas vezes com "tudo me é permitido, mas nem tudo me convém". De ela não poder. Ela tinha medo? Nunca perguntei de fato. Mas assumir custaria muito. E eu não aceitei - as flores foram devolvidas, ela não quis ir numa festa com medo de ser associada como minha namorada, entre outras coisas. Não aceitei de vez, não com paciência, não da forma que talvez ela precisasse.

Então eu fui embora. Com amizade, com amor, com tudo. 

E eu comecei a namorar. Sem contar pra ela. Com medo da reação dela, com medo do que eu representava pra ela, com medo do quanto ainda doía. Do quanto ela não escolheu. 

Partir em silêncio não foi crueldade. Foi covardia carinhosa. Ou cuidado covarde. Ainda não sei.

E ainda assim eu carrego lembranças que ela não lembra. 

Ela me traz lembranças que eu não lembro. 

Ela disse que ainda tem o Light Blue.

Ainda tenho a camisa de treino da Seleção da Alemanha de 2014 que ela me deu.

Eu ainda tenho o shortinho de praia da Nike que ela me deu. 

Ainda tenho aquela camisa jeans que ela me deu no meu aniversário de 2015.

Eu ainda tenho. Algumas lembranças. Muito fortes.

Como a da parede do quarto do apartamento da praia.

Com a invasão da minha cama.

Com o gemido baixo dela.

Com a língua dela na orelha. 

E ainda assim: há amor?

Esse é o problema. Eu lembro de muita coisa. Não lembro do resto. 

E me pergunto: 

- O que dela eu ainda ocupo? 

- Que gaveta, que memória ela arquivou?

- Ela lembra do meu cheiro passageiro num dia qualquer?

- Ela lembra de mim quando vê alguma coisa? 

Ou será que fui virando neblina enquanto eu ainda carregava tudo isso?

Não sei. A gente nunca conversou sobre isso. 

E talvez seja isso que ainda dói.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Just to read my Diary

 Por que você volta aos meus pensamentos desta forma?

 

Por que eu preciso saber de tudo o que aconteceu na sua vida através da sua irmã?

 

Por que você não me procurou?

 

Por que a gente se perdeu tanto uma da outra assim?

 

Por que a gente ainda se fala esporadicamente e sobre assuntos aleatórios?

 

Por que nunca sentamos e falamos de verdade sobre o que a gente sentia?

 

Por que você volta assim com tudo nos meus pensamentos?

 

Eu queria tanto que você tivesse me escolhido, que você não tivesse tido medo, que você se libertasse dessa coisa de que “é pecado”. Nós sabemos dos beijos e outras coisas que tivemos.

 

Por que eu não consigo parar de pensar em você desde sábado?

 

E por que eu sinto que a gente deixou tanta coisa não falada se sobrepor ao que queríamos?

 

Você nem sabe que eu escrevo sobre você. Eu só queria... que tivesse sido.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

"Sometimes love is not enough..."

Não, essa música não deveria ser para você. Não é, nesse momento.

Mas ver uma foto nossa hoje fez meu coração bater descompassado como na primeira vez em que te vi.

Não sei em qual momento isso virou um motivo para não nos falarmos. Não sei em qual momento eu enviar um e-mail dizendo que te amava fez você desistir.

É óbvio que não existe eu e você. Nunca existiu. 

Mas peno para acreditar que toda aquela química, aquela amizade que se formou, se perdeu assim... 

Não escolhemos nossas palavras de adeus. Foi tão silencioso.

Ruim mesmo é digitar seu nome no comunicador instantâneo e não ter coragem de te chamar. Já fui ignorada outras vezes, dessa vez não seria diferente.

É só que os sorrisos eram verdadeiros, os sentimentos também, para se perder assim. Sim, se passaram 6 anos. Mas me senti sem chão de novo.

E isso é um inferno. Porque alimento uma esperança de haver um "oi" que nunca sairá.

"Choose your last words
This is the last time
Cause you and I
We were born to die"

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Quebra de Padrão

Apenas porque é indescritível a sensação do beijo.

Das mãos que passeiam vagarosamente pelas costas.

Da boca que provoca arrepios quando roça o pescoço.

Da língua que quando toca a orelha, aumenta a vontade.

Das pernas que se enroscam, não querendo escapar.

Do calor dos corpos, que transmitem a energia.

Das línguas que se tocam, emergindo o desejo escondido.

E é assim... pode ser apenas um beijo, um pouco de amor, um pouco de amizade.

Mas no fundo, é uma quebra de padrão.

domingo, 19 de maio de 2013

Como Não Namoramos (apesar de)

Vamos dormir no mesmo horário. Claro que eu durmo primeiro, mas também acordo primeiro. Te deixando falando quando durmo. E quando eu acordo as 4h, não tenho coragem de te acordar.

Tirando as pessoas de casa, somos praticamente as primeiras pessoas a nos falarmos. Um bom dia, um desejo de boa ida ao trabalho, um carinho.

Nossos perfumes combinam. Eles se trocam logo pela manhã, quando seu abraço é quente e meu nariz está gelado.

Nos falamos o dia todo. Via e-mail, via mensagem instantânea, via SMS. E pessoalmente. E não nos cansamos.

Tenho ciúmes, não sei dizer se o contrário existe. Eu me mantenho na minha, para não dar motivos para ninguém falar. 

Tentamos sustentar nossos olhares. Não conseguimos. Se houvesse cron ometro, sabemos que não suportamos mais de 3 segundos. Pode virar um perigo, sem querermos.

Há troca de carinhos, conversas em tom baixo, canções, declarações. Amor, puro amor. No começo, mas amor.

Todo um cuidado com as palavras, com os gestos. Nossos olhares, nossas conversas, nosso modo de nos conduzir.

Sei que há uma calmaria quando estamos perto. Para mim, pelo menos, as coisas parecem ficar mais fáceis. Meu coração se alegra, meu sorriso se transforma, meus sentimentos quase não cabem em mim.

E essa é a forma como não namoramos. Apesar de.