domingo, 5 de abril de 2026

We Gotta Get Away From Here

 Hoje eu passei na casa da sua irmã, já tinha combinado com ela. Dei parabéns para ela, sentei, conversei, conheci pessoalmente sua irmã mais nova — e fingi que tudo era muito simples.

E não era.

Tem alguma coisa desconfortável que acontece quando a gente divide um espaço pequeno depois de tudo (qual tudo?). As palavras ficam mais curtas, os sorrisos ficam mais rápidos, e o silêncio entre uma frase e outra pesa de um jeito que todo mundo sente mas ninguém nomeia. Até sua sobrinha percebeu. Ela lembra perfeitamente de como éramos amigas — e ainda assim notou que alguma coisa entre a gente não fecha direito.

Depois eu te dei carona. Você ficou no banco do passageiro como se fosse uma coisa normal. Como se eu fosse uma coisa normal. Mexeu na minha chave com chaveiro dos Cavaleiros do Zodíaco. Usou meu álcool em gel sem pedir. Reclamou de coisas aleatórias, desta vez da minha garrafa - porque outros bancários também tem essa garrafa e acham que é fácil levar essa garrafa no metrô e etc etc etc. Como se fosse um outro dia qualquer em nossas vidas, como se você conhecesse os acessórios do carro atual como conhecia do antigo. Não pedindo permissão para mexer em nada. Como se a gente não fosse uma ferida que nunca fechou porque nenhuma das duas teve coragem de nomear o que era.

Eu coloquei música. Sempre coloco. Talvez pra ter onde olhar além de você.

"Just stop your crying, it's a sign of the times."

Eu quase ri. Daquele jeito torto de quando a vida escolhe a trilha sonora por você e acerta demais.

A gente se perdeu. Irremediavelmente. Eu tenho culpa, você também tem. Mas o problema não é o fim — o fim eu já tinha ensaiado mil vezes. O problema é o que ficou antes. O que eu precisei inventar pra aguentar ficar perto de você sem dizer nada. Eu construí uma versão sua que cabia em mim, cheia de coisas que você nunca prometeu ser.

Você sempre foi exatamente quem era. Eu acreditei em promessas que só eu vi. É agora nem amizade parece ter sobrado.

É tão triste isso. Tão triste que eu nem consigo mais  chorar. Só consigo observar.

E agora fico aqui tentando desmontar cada coisa que guardei — cada silêncio que li como cuidado, cada vez que você sorriu pra mim e eu deixei esse sorriso fazer mais do que deveria. 

Cansa. 

Desconstruir uma ilusão cansa muito mais do que perder uma pessoa real.

Porque você continua existindo. Do outro lado da cidade, do outro lado do desconforto que agora mora entre a gente. 

Você continua existindo — e eu que virei fantasma. 

Fui embora sem desabar. Fiz tudo certo: sorri, conversei, não toquei em assuntos espinhosos, mal olhei pra você.

Mas agora tô aqui, a música ainda não parou - tá num looping maldito e eterno na minha cabeça e nos meus fones de ouvido - e eu tô pensando que a gente nunca teve começo oficial. Nunca teve nome. E agora tem um fim igualzinho — sem data, sem despedida, sem amizade, sem um resquício, sem nada que eu possa segurar.

A única certeza que tenho é de que amei sozinha.

E que isso nunca vai ter sido dito em voz alta.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Lembranças

Eu nem lembrava que tinha dado pra ela um Light Blue. Será que foi da viagem de 2014? Da de 2016?

Da mesma forma que ela não lembrou da Jules Destrooper que dividimos em Abu Dhabi. 

Da mesma forma que eu disse para ela no dia em que ela aceitou a carona que eu tinha uma camisa igual a que ela estava usando e ela disse que claro que eu tinha, porque tínhamos comprado juntas. Quando foi isso?

Ela também guardou coisas. Talvez não as mesmas coisas.

Eu fico pensando no que ela carrega que eu esqueci. O que ainda vai aparecer numa conversa.

E aquela foto específica dela no alto da montanha em Campos, com a lua atrás? Será que ela lembrou? Será que ela viu? Será que ela lembra das coisas como uma foto que não sabia que existia?

Eu fiquei magoada infinitas vezes com "tudo me é permitido, mas nem tudo me convém". De ela não poder. Ela tinha medo? Nunca perguntei de fato. Mas assumir custaria muito. E eu não aceitei - as flores foram devolvidas, ela não quis ir numa festa com medo de ser associada como minha namorada, entre outras coisas. Não aceitei de vez, não com paciência, não da forma que talvez ela precisasse.

Então eu fui embora. Com amizade, com amor, com tudo. 

E eu comecei a namorar. Sem contar pra ela. Com medo da reação dela, com medo do que eu representava pra ela, com medo do quanto ainda doía. Do quanto ela não escolheu. 

Partir em silêncio não foi crueldade. Foi covardia carinhosa. Ou cuidado covarde. Ainda não sei.

E ainda assim eu carrego lembranças que ela não lembra. 

Ela me traz lembranças que eu não lembro. 

Ela disse que ainda tem o Light Blue.

Ainda tenho a camisa de treino da Seleção da Alemanha de 2014 que ela me deu.

Eu ainda tenho o shortinho de praia da Nike que ela me deu. 

Ainda tenho aquela camisa jeans que ela me deu no meu aniversário de 2015.

Eu ainda tenho. Algumas lembranças. Muito fortes.

Como a da parede do quarto do apartamento da praia.

Com a invasão da minha cama.

Com o gemido baixo dela.

Com a língua dela na orelha. 

E ainda assim: há amor?

Esse é o problema. Eu lembro de muita coisa. Não lembro do resto. 

E me pergunto: 

- O que dela eu ainda ocupo? 

- Que gaveta, que memória ela arquivou?

- Ela lembra do meu cheiro passageiro num dia qualquer?

- Ela lembra de mim quando vê alguma coisa? 

Ou será que fui virando neblina enquanto eu ainda carregava tudo isso?

Não sei. A gente nunca conversou sobre isso. 

E talvez seja isso que ainda dói.