quinta-feira, 5 de março de 2026

Lembranças

Eu nem lembrava que tinha dado pra ela um Light Blue. Será que foi da viagem de 2014? Da de 2016?

Da mesma forma que ela não lembrou da Jules Destrooper que dividimos em Abu Dhabi. 

Da mesma forma que eu disse para ela no dia em que ela aceitou a carona que eu tinha uma camisa igual a que ela estava usando e ela disse que claro que eu tinha, porque tínhamos comprado juntas. Quando foi isso?

Ela também guardou coisas. Talvez não as mesmas coisas.

Eu fico pensando no que ela carrega que eu esqueci. O que ainda vai aparecer numa conversa,

E aquela foto específica dela no alto da montanha em Campos, com a lua atrás? Será que ela lembrou? Será que ela viu? Será que ela lembra das coisas como uma foto que não sabia que existia?

Eu fiquei magoada infinitas vezes com "tudo me é permitido, mas nem tudo me convém". De ela não poder. Ela tinha medo? Nunca perguntei de fato. Mas assumir custaria muito. E eu não aceitei - as flores foram devolvidas, ela não quis ir numa festa com medo de ser associada como minha namorada, entre outras coisas. Não aceitei de vez, não com paciência, não da forma que talvez ela precisasse.

Então eu fui embora. Com amizade, com amor, com tudo. 

E eu comecei a namorar. Sem contar pra ela. Com medo da reação dela, com medo do que eu representava pra ela, com medo do quanto ainda doía. Do quanto ela não escolheu. 

Partir em silêncio não foi crueldade. Foi covardia carinhosa. Ou cuidado covarde. Ainda não sei.

E ainda assim eu carrego lembranças que ela não lembra. 

Ela me trás lembranças que eu não lembro. 

Ela disse que ainda tem o Light Blue.

Ainda tenho a camisa de treino da Seleção da Alemanha de 2014 que ela me deu.

Eu ainda tenho o shortinho de praia da Nike que ela me deu. 

Ainda tenho aquela camisa jeans que ela me deu no meu aniversário de 2015.

Eu ainda tenho. Algumas lembranças. Muito fortes.

Como a da parede do quarto do apartamento da praia.

Com a invasão da minha cama.

Com o gemido baixo dela.

Com a língua dela na orelha. 

E ainda assim: há amor?

Esse é o problema. Eu lembro de muita coisa. Não lembro do resto. 

E me pergunto: 

- O que dela eu ainda ocupo? 

- Que gaveta, que memória ela arquivou?

- Ela lembra do meu cheiro passageiro num dia qualquer?

- Ela lembra de mim quando vê alguma coisa? 

Ou será que fui virando neblina enquanto eu ainda carregava tudo isso?

Não sei. A gente nunca conversou sobre isso. 

E talvez seja isso que ainda dói.

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