domingo, 11 de outubro de 2026

Um Maldito Par de Chinelos

Eu sempre soube que a sua vida seguiu. A minha também seguiu. Por qual motivo a sua não seguiria?

Mas hoje, por causa de um comentário absolutamente idiota sobre um par de chinelos esquecido na praia, descobri que outras pessoas também frequentaram aquele apartamento.

Foi só isso.

E estou chorando de um jeito que não consigo explicar. Ou talvez consiga, mas tenha vergonha de admitir.

Porque eu achava que existiam lugares que ainda eram só nossos. Aquela praia, aquele apartamento, aquele quarto. Aquela parede da qual ainda me lembro tão bem.

Ingenuidade minha. Eu sei.

Você nunca me prometeu que aqueles lugares permaneceriam intocados. Aliás, não me prometeu quase nada.

Mas é estranho descobrir que aquilo que guardei durante tantos anos como algo tão particular talvez não tenha tido a mesma importância para você.

E, de repente, algumas coisas parecem fazer sentido.

Talvez seja por isso que você não atravessa. Talvez não exista, do seu lado, nada parecido com o que ainda existe do meu. Talvez eu tenha passado todos esses anos tentando reencontrar alguém num lugar de onde essa pessoa já saiu há muito tempo.

Ou talvez eu esteja procurando respostas onde elas não existem.

Porque nós nunca vamos conversar sobre sentimentos. Nunca vamos falar sobre o que fomos, sobre o que ficou ou sobre o que ainda significa alguma coisa.

E eu nunca vou saber.

O que sei é que estou aqui, depois de tantos anos, chorando por uma lembrança que ninguém me tirou. Mas que, de alguma maneira, hoje parece diferente.

Não tenho raiva de você. Nem sequer tenho o direito de estar decepcionada.

Só estou triste. Profundamente triste.

Porque eu sempre soube que não fazia mais parte da sua vida daquela maneira.

Só não tinha percebido que uma parte de mim nunca saiu daquele quarto.

E tudo isso por causa de um maldito par de chinelos que sua irmã tá usando. Um maldito par de chinelos.